No dia 21 de Abril de 2012 realizou-se mais um encontro de Poetas Aqui. Connosco. Filipe de Fiúza apresentou a todos os presentes no Ateliê CriArt um pouco da vida e obra do poeta alemão Rainer Maria Rilke e dos poetas portugueses Teixeira de Pascoaes e Mário Beirão. O poeta sintrense Jorge Vicente foi o convidado do Poetas Aqui. Connosco de Abril 2012.
«Esta manhã, depois que a noite inquieta esmoreceu entre urros, sustos, surtos _ o mar ainda uma vez se abriu e uivou. E quando o grito aos poucos foi cessando e do alto o dia pálido emergente caiu no vórtice dos peixes mudos_ o mar pariu.
Ao sol reluzem os pelos de espuma do amplo ventre da onda, em cuja borda surge a mulher, alva, trêmula e úmida. E como a folha nova que estremece, se estira e rompe aos poucos a clausura, ela vai desvelando o corpo à brisa e ao vento intacto da manhã.
Como luas erguem-se os joelhos claros, réstias de nuvens soltam-se das coxas, das pernas caem pequeninas sombras, os pés se movem bêbados de luz, vibram as juntas como gorgolhantes gargantas.
Na taça da bacia jaz o corpo, como um fruto na mão de uma criança, o estreito cálice do umbigo encerra tudo o que é escuro nessa clara vida. Em baixo alteiam-se as pequenas ondas que escorrem, incessantes, pelas ancas, onde, de quando em quando, a espuma chove. Porém, exposto, sem sombras, emerge, como um maço de bétulas de abril, quente, vazio e descoberto, o sexo.
A balança dos ombros paira, ágil, em equilíbrio sobre o corpo ereto que irrompe da bacia como fonte vacilante entre os longos braços fluindo veloz pela cascata dos cabelos.
Então bem lentamente vem o rosto: da sombra estreita da reclinação para a clara altitude horizontal. Após o qual fecha-se, abrupto, o queixo.
Eis que o pescoço surge como um fluxo de luz, ou talo, de onde a seiva sobe, e se estiram o s braços como o colo de um cisne quando busca a ribanceira.
Então, da obscura aurora desse corpo, ar da manhã, vem o primeiro alento. No fio mais tênue da árvore das veias há como que um bulício e o sangue flui a sussurrar nas fundas galerias, e essa brisa se expande: agora cresce com todo o hausto sobre os peitos novos que se intumescem de ar e a impulsionam, e como velas côncavas de vento levam a jovem para a praia.
Assim aportou a deusa. Atrás dela, pisando a terra nova, lépida, ergueram-se toda a manhã flores e caules, quentes, perturbados, como num beijo. E ela foi e correu.
Porém, ao meio dia, na hora mais intensa, o mar se abriu de novo e arremessou no mesmo ponto o corpo de um delfim. Morto, roxo e oco.»
Versão em alemão:
Leitura integral da Primeira e Oitava elegia da obra As Elegias de Duíno:
Excerto da Oitava Elegia:
«Com todos os olhos a criatura vê o Aberto. Só os nossos olhos estão como que ao contrário e envolvem-na toda como armadilhas em volta da sua saída livre. O que no exterior está, sabemo-lo apenas através da face do animal; pois já em pequena voltamos a criança e obrigamo-la a olhar para trás, para a Forma e não para o Aberto, tão profundo na fisionomia do animal. Liberto da morte. Nós vemo-la, só nós; o animal livre, pelo contrário, tem atrás de si o seu declínio e diante de si Deus e quando avança, avança para a eternidade, tal como jorram as fontes.»
Leitura partilha de excertos da obra Frutos e Apontamentos, entre os quais:
«58
Paremos um pouco. Conversemos. Esta noite, sou ainda eu que paro - e sois vós, ainda, que me escutais.
Mais longe, outros brincarão a fazer de vizinhos, nesta estrada, à sombra destas árvores que nos damos.»
Leitura dos poemas Elegia do Amor, Senhora da Noite e Os Montes.
Elegia do Amor
«I
Lembras-te, meu amor, Das tardes outonais, Em que íamos os dois, Sozinhos, passear, Para fora do povo Alegre e dos casais, Onde só Deus pudesse Ouvir-nos conversar? Tu levavas, na mão, Um lírio enamorado, E davas-me o teu braço; E eu triste, meditava Na vida, em Deus, em ti… E, além, o sol doirado Morria, conhecendo A noite que deixava. Harmonias astrais Beijavam teus ouvidos; Um crepúsculo terno E doce diluía, Na sombra, o teu perfil E os montes doloridos… Erravam, pelo Azul, Canções do fim do dia. Canções que, de tão longe, O vento vagabundo Trazia, na memória… Assim o que partiu Em frágil caravela, E andou por todo o mundo, Traz, no seu coração, A imagem do que viu. Olhavas para mim, Às vezes, distraída, Como quem olha o mar, À tarde, dos rochedos… E eu ficava a sonhar, Qual névoa adormecida, Quando o vento também Dorme nos arvoredos. Olhavas para mim… Meu corpo rude e bruto Vibrava, como a onda A alar-se em nevoeiro. Olhavas, descuidada E triste… Ainda hoje te escuto A música ideal Do teu olhar primeiro! Ouço bem a tua voz, Vejo melhor teu rosto No silêncio sem fim, N a escuridão completa! Ouço-te em minha dor, Ouço-te em meu desgosto E na minha esperança Eterna de poeta! O sol morria, ao longe; E a sombra da tristeza Velava, com amor, Nossas doridas frontes. Hora em que a flor medita E a pedra chora e reza, E desmaiam de mágoa As cristalinas fontes. Hora santa e perfeita, Em que íamos, sozinhos, Felizes, através Da aldeia muda e calma, Mãos dadas, a sonhar, Ao longo dos caminhos…
Tudo, em volta de nós, Tinha um aspecto de alma. Tudo era sentimento, Amor e piedade. A folha que tombava Era alma que subia… E, sob os nossos pés, A terra era saudade, A pedra comoção E o pó melancolia. Falavas duma estrela E deste bosque em flor; Dos ceguinhos sem pão, Dos pobres sem um manto. Em cada tua palavra, Havia etérea dor; Por isso, a tua voz Me impressionava tanto! E punha-me a cismar Que eras tão boa e pura, Que, muito em breve – sim! -, Te chamaria o céu! E soluçava, ao ver-te Alguma sombra escura, Na fronte, que o luar Cobria, como um véu. A tua palidez Que medo me causava! Teu corpo fino E leve (oh meu desgosto!) Que eu tremia, ao sentir O vento que passava! Caía-me, na alma, A neve do teu rosto. Como eu ficava mudo E triste, sobre a terra! E uma vez, quando a noite Amortalhava a aldeia, Tu gritaste, de susto, Olhando para a serra: - Que incêndio! – E eu, a rir, Disse-te: - É a lua cheia!... E sorriste também Do teu engano. A lua Ergueu a branca fronte, Acima dos pinhais, Tão ébria de esplendor, Tão casta e irmã da tua, Que eu beijei, sem querer, Seus raios virginais. E a lua, para nós, Os braços estendeu. Uniu-nos num abraço, Espiritual, profundo; E levou-nos assim, Com ela, até ao céu… Mas, ai, tu não voltaste E eu regressei ao mundo.
II
Um raio de luar, Entrando, de improviso No meu quarto sombrio, Onde medito, a sós, Deixa, a tremer, no ar, Um pálido sorriso, Um murmúrio de luz Que lembra a tua voz. O Outono, que derrama Ideal melancolia Nas almas sem amor, Nos troncos sem folhagem, Deixa vibrar, em mim, Saudosa melodia, Dolorida canção, Que lembra a tua imagem. A noite, que escurece Os vales e os outeiros, E que acende, num bosque, A voz do rouxinol E a estrela que protege E guia os pegureiros; A lágrima do céu Ao ver morrer o sol, Acorda, no meu peito, Infinda e etérea dor, Que à memória me traz Aluz do teu olhar. Tudo de ti me fala, Ó meu longínquo amor: As árvores, a névoa, Os rouxinóis e o mar. Se passo por um lírio, Às vezes, distraído, Chama por mim, dizendo: „Oh! Não te esqueças dela!‰ Diz-mo também, chorando O vento dolorido. Diz-mo a fonte, a cantar, Diz-mo, a brilhar, a estrela. E vejo, em toda a luz, Teus olhos a fulgir. Como adivinho, em tudo, A alma que perdi! Não encontro uma flor, Sem o teu nome ouvir. Não posso olhar o céu, Sem me lembrar de ti! Por isso, eu amo o pobre, O triste e a Natureza, A mãe da humana dor, Da dor de Deus a filha. Meu coração, ao pé Dum pobrezinho, reza; Canta, ao lado dum ninho, Ao pé da estrela, brilha. O meu amor por ti, Meu bem, minha saudade, Ampliou-se até Deus, Os astros alcançou. Beijo o rochedo e a flor, A noite e a claridade. São estes, sobre o mundo, Os beijos que te dou. Hás-de senti-los, sim, Doce mulher de outrora. Ó roxo lírio de hoje, Ó nuvem actual! Como dantes teu rosto, A rosa ainda hoje cora; Beijo-te, sim, beijando A rosa virginal. Teu espectro divaga, Ao longo dos espaços. Teu amor, feito luz, Desce do Firmamento. Se abraço um verde tronco, Eu sinto, entre os meus braços, Teu corpo estremecer, Como uma flor, ao vento. Soluça a tua dor Nas infinitas mágoas, Que, no fumo da tarde, Eu vejo, além, subir. E paira a tua voz No marulhar das águas, No murmúrio que sai Das pétalas a abrir. Se os lábios vou molhar Nas ondas duma fonte, Queimam meu coração Tuas lágrimas salgadas. E, quando acaricia O vento a minha fronte Eu bem sinto, sobre ela, As tuas mãos sagradas. Quando a lua, no Outono, Envolta em luz funérea, Morta, vai a boiar Nas águas do Infinito, Doira meu frio rosto A palidez etérea, Que dantes emanava O teu perfil bendito. Quando, em manhãs d`Abril, Acordo, de repente, E vejo, no meu quarto, O sol entrar, sorrindo, Julgo ver, ante mim, Teu corpo resplendente, Tua trança de luz, Teu gesto suave e lindo. Descubro-te, mulher, Na Natureza inteira, Porque entendo a floresta, A névoa, o céu doirado, A estrela a arder, no Azul, A lenha, na lareira E o lírio que, na cruz Do outono, está pregado. Falas comigo, sim, Da dor, do bem, de Deus. Repartes o meu pão, Amor, pelos ceguinhos. E pelas solidões Os pobres versos meus, Como os pobres que vão, A orar, pelos caminhos. És a minha ternura, A minha piedade, Pois tudo me comove! O zéfiro mais leve Acende, no meu peito, Infinda claridade; E a brancura do lírio Enche meu ser de neve. Todo eu fico a cismar Na louca voz do vento, Na atitude serena E estranha duma serra; No delírio do mar, Na paz do Firmamento E na nuvem, que estende As asas, sobre a terra. Todo eu fico a cismar, Assim como que esquecido, Ante a flor virginal E o sol enamorado. Ante o luar que nasce, Al longe, dolorido, Dando às cousas um ar Tão triste e macerado. Todo eu medito e cismo. Um vago e etéreo laço Prende-me ao teu imendo E livre coração, Que abrange o mundo inteiro E ocupa todo o espaço, E que vai povoar A minha solidão. Por isso, eu vivo sempre, Em doce companhia, Com o pobre que pede E a estrela que fulgura; E, assim, a minha alma, Igual à luz do dia Derrama-se, no céu, Em ondas de ternura. Sou como a chuva e o vento E a sombra duma cruz! Lira, que a mais suave Aragem faz vibrar. Água que, ao luar brando, Em nuvens se traduz; Fruto que amadurece, À luz dum claro olhar. Pedra que um beijo funde E místico vapor, Que um hálito condensa Em pura gota de água. Sou aroma que um ai Encarna em triste flor; Riso que muda em choro A mais pequena mágoa. Vivo a vida infinita, Eterna, esplendorosa. Sou neblina, sou ave, Estrela, Azul sem fim, Só porque, um dia, tu, Mulher misteriosa, Por acaso, talvez, Olhaste para mim.»
Canção Final
«Aí vem a noite velhinha, Erma sombra entrevadinha, Mal pode andar, de cansada...
Já o dia se avizinha...
E noite, triste e sozinha, Tão pálida e fatigada, Da sua longa jornada, Deita-se e dorme.
A alvorada É o sono bom da noitinha...
E a noite dorme quentinha, Na cama que lhe foi dada...
Dorme, dorme, sossegada, Noite de Deus, sombra minha, Que o teu sono é madrugada...»
Leitura do poema Cintra, do qual o seguinte excerto:
«Oh Pena, altar de nuvens sobre a Serra, Paço de sombras reaes, feito em granito E seculos de Azul,—olhando a Terra Das janelas que ogivam o Infinito!
Oh vôo das florestas que se esfólham, Tontas de ceus, fragancia! Oh tardas sombras rôxas da Distancia! Ruinas—noite donde as aguias ólham!
Oh cedros esmanchando as ramarias, Afofando penumbras! Crepusculos longinquos de arcarias! Agua que, ao pôr-do-sol, és múrmura e deslumbras, Que deslumbras meus olhos, meus ouvidos, E, incerta de gemidos, Vaes esculpindo a diafanos lavôres As pedras onde o sol desmaia e verte côres!
Oh paizagem do Ceu! Cintra! Visão suprema! Architectura dos accordes dum poëma! Em ti as mãos do Vento em furia batalharam! O Genio e a Lenda para alem te perpetuaram!
Oh Graça que desceste á Terra por encanto, Granitos que, ao luar, sois brancos alabastros, Ramos verdes, á noite, onde estremecem astros, Meu canto vem de vós, é para vós meu canto!»
Foi ainda partilhada uma carta de Fernando Pessoa a Mário Beirão que poderá ser lida na seguinte ligação do arquivo Pessoano: http://arquivopessoa.net/textos/4446
JORGE VICENTE - Poeta Português convidado
Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Mestrando em Ciências Documentais e em processo de formação na Escola de Biodanza de Portugal, tem poemas publicados em diversas antologias literárias, revistas e participa activamente nas lista de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu.
O seu primeiro livro de poesia, Ascensão do Fogo, foi publicado em 2008, sendo seguido por Hierofania dos Dedos, editado sob a chancela da Temas Originais, em 2009.
depois de ti falo só água catarina nunes de almeida
«depois de ti falo só lágrima e um ribeiro entre as folhas, como que a arrancar do lodo o que resta dos meus dedos.
depois de ti falo dos homens e das pontes que construíram, penhascos altos do céu - olímpicos tronos de estrelas.
depois de ti falo só pranto e dos homens que aqui ficaram - a poesia é espada que cega, sem rosto, promessa velada.»
Da Antologia Amantes das Leitura 2011:
tudo o que é sólido se desfaz no ar karl marx
«1.
tudo o que é sólido se desmancha no chão abrindo do sexo o som inaudito surgindo [fazendo surgir] resplandecendo do corpo a subtil palavra que antes representava a realidade
tudo o que é sólido se amanhece no chão sempre chuvoso tocando, deixando tocar deserdando no amanhecido grito o som do poema de carne
tudo o que é sólido se realiza no canto o humano, o vivo os dedos aspirando e recebendo o som [dionisos] longe longe de tudo o que a humana razão compreende.»